Yomi: O Mundo dos Mortos na Mitologia Japonesa

Yomi o reino dos mortos
Yomi, o reino dos mortos

A mitologia japonesa é um universo rico em simbolismos, deuses, espíritos e narrativas que ajudam a explicar a origem do mundo, da vida e da morte. Entre esses elementos, Yomi ocupa um lugar central e profundamente simbólico. Conhecido como o mundo dos mortos ou o submundo da mitologia japonesa, Yomi não é apenas um local físico ou espiritual, mas uma representação complexa da relação entre vida, morte, impureza e transformação.

Neste artigo, vamos explorar em profundidade o conceito de Yomi: sua origem, significado, mitos associados, diferenças em relação a outros “infernos” do mundo, e como essa ideia ainda influencia a cultura japonesa contemporânea.

O que é Yomi?

Yomi (黄泉), frequentemente traduzido como “Terra Amarela” ou “Fonte Amarela”, é o reino dos mortos na mitologia japonesa. Ele aparece principalmente nos textos mais antigos do Japão, como o Kojiki (Registro de Assuntos Antigos, do século VIII) e o Nihon Shoki (Crônicas do Japão).

Diferente da noção ocidental de inferno, Yomi não é um lugar de punição moral. Ele não existe para recompensar os bons ou castigar os maus. Em vez disso, Yomi é simplesmente o destino inevitável dos mortos — um local sombrio, silencioso e marcado pela decomposição.

A origem mítica de Yomi

A narrativa mais conhecida envolvendo Yomi é o mito de Izanagi e Izanami, os deuses criadores do Japão.

Segundo a mitologia:

  • Izanagi e Izanami foram responsáveis por criar as ilhas do Japão e diversos deuses.
  • Durante o nascimento do deus do fogo, Kagutsuchi, Izanami sofreu queimaduras fatais e morreu.
  • Após sua morte, Izanami desceu para Yomi.

Inconformado, Izanagi decide ir até Yomi para trazê-la de volta. Esse é um ponto crucial do mito, pois marca o primeiro contato entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

A descida de Izanagi ao submundo

Ao chegar a Yomi, Izanagi encontra Izanami, que inicialmente aceita retornar com ele, mas pede que ele não a olhe enquanto ela se prepara. Movido pela curiosidade e impaciência, Izanagi quebra a promessa e ilumina o local com um pente em chamas.

O que ele vê é aterrador: Izanami está em estado avançado de decomposição, com vermes e criaturas sobrenaturais habitando seu corpo. Horrorizado, Izanagi foge, sendo perseguido por Izanami enfurecida e entidades do submundo.

Esse momento simboliza uma verdade fundamental da mitologia japonesa:
👉 A morte é irreversível, e tentar violar essa ordem natural traz consequências.

A separação entre vivos e mortos

Ao escapar de Yomi, Izanagi sela a entrada do submundo com uma enorme rocha. Izanami, do outro lado, promete matar mil pessoas por dia como vingança. Izanagi responde que fará nascer mil e quinhentas pessoas diariamente.

Esse diálogo mítico explica, de forma simbólica, o ciclo da vida e da morte. A morte passa a ser uma presença constante no mundo humano, mas a vida sempre se renova.

Aqui, Yomi deixa de ser apenas um lugar e se torna um conceito cosmológico, representando o equilíbrio inevitável entre criação e destruição.

Yomi não é o inferno cristão

Um erro comum é associar Yomi diretamente ao inferno cristão, mas essa comparação é limitada.

Algumas diferenças importantes:

  • Não há julgamento moral: todos vão para Yomi, independentemente de suas ações em vida.
  • Não há punição eterna consciente: o sofrimento não é infligido como castigo divino.
  • Ênfase na impureza (kegare): a morte é vista como algo impuro, não pecaminoso.

Na visão xintoísta, a morte gera poluição espiritual, e Yomi é a manifestação máxima dessa impureza.

Yomi, kegare e rituais de purificação

ritual japonês de purificação: kegare
Ritual Kegare

Após retornar de Yomi, Izanagi realiza um importante ritual de purificação, conhecido como misogi. Durante esse processo, ao lavar seu corpo em um rio, nascem novos deuses, incluindo:

  • Amaterasu, deusa do Sol
  • Tsukuyomi, deus da Lua
  • Susanoo, deus das tempestades

Isso reforça uma ideia central da espiritualidade japonesa:
🌱 Da impureza pode surgir renovação.

Até hoje, rituais de purificação são comuns no Japão, especialmente em santuários xintoístas, refletindo o medo e o respeito em relação à morte e ao que ela representa.

Yomi na cultura japonesa contemporânea

Embora Yomi seja um conceito antigo, ele continua presente na cultura moderna japonesa, especialmente em:

🎮 Jogos

  • Persona
  • Okami
  • Nioh
  • Shin Megami Tensei

🎌 Animes e mangás

  • Naruto
  • Bleach
  • Noragami
  • Inuyasha

Nessas obras, Yomi costuma ser reinterpretado, misturado com outras ideias de pós-vida, infernos budistas e mundos espirituais, mas quase sempre mantendo seu caráter sombrio e liminar.

Yomi e o medo da decomposição

Um dos aspectos mais marcantes do mito é a descrição gráfica da decomposição de Izanami. Isso revela uma visão muito direta da morte como algo físico, inevitável e desconfortável.

Diferente de culturas que romantizam o pós-vida, a mitologia japonesa tradicional encara a morte com:

  • Respeito
  • Temor
  • Aceitação silenciosa

Yomi não promete redenção nem sofrimento eterno. Ele simplesmente é.

Comparações com outros submundos mitológicos

Yomi pode ser comparado a outros reinos dos mortos, como:

  • Hades (Grécia)
  • Hel (mitologia nórdica)
  • Irkalla (Mesopotâmia)

Assim como eles, Yomi é um local inevitável, governado não por justiça moral, mas por leis cósmicas. No entanto, Yomi se destaca por sua forte associação com a impureza e a ruptura definitiva entre vida e morte.

O simbolismo profundo de Yomi

Mais do que um simples “lugar”, Yomi simboliza:

  • A aceitação da mortalidade
  • A impossibilidade de retorno
  • O medo do desconhecido
  • A necessidade de limites entre mundos

Ele nos lembra que a vida só tem valor porque é finita, e que tentar negar a morte pode trazer desequilíbrio.

Conclusão: Yomi como espelho da existência humana

Yomi é um conceito poderoso porque não oferece conforto fácil. Ele não promete céu, recompensa ou justiça. Em vez disso, oferece verdade.

A mitologia japonesa, por meio de Yomi, ensina que a morte faz parte da ordem natural, que a separação entre vivos e mortos deve ser respeitada, e que a vida continua apesar da perda.

Ao compreender Yomi, compreendemos também uma visão de mundo mais sóbria, profunda e, paradoxalmente, mais humana.

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