Muito antes de homens erguerem templos ou deuses receberem nomes, algo já estava condenado. No centro de toda a criação, onde o mundo se sustenta sobre estruturas invisíveis, existe uma presença que não cria, não governa e não protege. Ela apenas consome. Seu nome é Nidhogg.

Diferente dos monstros que destroem cidades ou dos deuses que exigem sacrifícios, Nidhogg opera em silêncio. Ele não anuncia sua chegada, não se revela aos vivos, não precisa ser temido diretamente. Sua função é mais profunda, e muito mais aterradora. Ele rói as próprias fundações da existência.
Nidhogg habita as raízes mais profundas de Yggdrasil, a Árvore do Mundo. Não os galhos onde vivem os deuses, nem o tronco onde caminham os homens, mas o lugar esquecido, úmido e eterno onde a luz jamais chegou. Ali, entre ossos, sombras e água estagnada, ele mastiga lentamente aquilo que mantém tudo de pé.
As lendas dizem que Nidhogg nasceu junto com o ódio. Não o ódio explosivo, mas o ressentimento profundo, aquele que se acumula ao longo do tempo. Ele se alimenta de juramentos quebrados, crimes não punidos, covardia e traição. Cada falha moral fortalece suas mandíbulas.
Seu corpo não é descrito de forma consistente, e isso é proposital. Alguns o chamam de dragão, outros de serpente, outros de algo ainda mais antigo. O que todos concordam é que seus olhos jamais fecham e que sua boca nunca descansa. Ele não dorme. Ele espera.
Enquanto os deuses nórdicos travam batalhas épicas nos céus, Nidhogg trabalha abaixo deles. Cada mordida sua enfraquece Yggdrasil imperceptivelmente. Não é um colapso imediato, mas uma deterioração lenta, inevitável. O mundo não termina com uma explosão, ele apodrece.
As almas que cometem crimes hediondos não são simplesmente punidas. Elas caem. Descendem até Niflheim, o reino do frio eterno, onde Nidhogg as espera. Ali, ele se alimenta delas, não de sua carne, mas de sua essência. Dor, culpa e arrependimento são seu banquete.
Alguns textos afirmam que Nidhogg não pode ser morto porque ele não está vivo. Ele é uma função do universo. Enquanto houver decadência, ele existirá. Matar Nidhogg seria o mesmo que negar a consequência dos atos, algo que nem mesmo os deuses ousaram tentar.
Há um detalhe ainda mais perturbador: Nidhogg não age sozinho. Pequenas criaturas, vermes e serpentes menores, auxiliam seu trabalho. Elas se espalham pelas raízes, acelerando a decomposição. Isso simboliza como pequenas corrupções, ignoradas, levam a colapsos irreversíveis.
Os deuses sabem da existência de Nidhogg. Odin sabe. Thor sabe. E ainda assim, nada fazem. Não por medo, mas por compreensão. Eles sabem que impedir Nidhogg significaria interromper o ciclo natural de punição. O universo precisa de algo que lembre até os deuses que tudo é temporário.
Durante o Ragnarök, Nidhogg finalmente emergirá. Não como um invasor repentino, mas como algo que sempre esteve ali e agora não precisa mais se esconder. As raízes, corroídas por eras, cederão. Yggdrasil tremerá. E o mundo cairá não porque foi atacado, mas porque foi negligenciado.
Há versões da lenda que afirmam que Nidhogg carrega cadáveres em suas asas durante o fim dos tempos. Não como troféus, mas como provas. Provas de que cada destruição foi merecida. Nada se perde injustamente aos olhos dessa criatura.

O terror de Nidhogg não está em sua violência, mas em sua justiça fria. Ele não pune inocentes. Ele apenas cobra. Cada sociedade que ignora suas falhas, cada indivíduo que acredita que seus atos não terão consequência, está oferecendo alimento.
Mesmo hoje, longe das crenças nórdicas, Nidhogg continua existindo como ideia. Ele é a rachadura ignorada, o problema adiado, o erro repetido. Ele cresce onde há negligência moral. E quanto mais tempo passa, mais difícil se torna contê-lo.
Alguns estudiosos afirmam que o mito de Nidhogg surgiu para explicar algo que os humanos sempre temeram: o fato de que o mundo não acaba por um grande evento, mas por pequenas escolhas erradas acumuladas ao longo do tempo.
Se isso for verdade, então Nidhogg não vive apenas sob Yggdrasil. Ele vive em cada sistema corrompido, em cada verdade distorcida, em cada raiz que parece firme, mas já está oca por dentro.
E quando finalmente tudo desabar, não será surpresa. Será apenas o som inevitável de algo que foi roído por tempo demais.
