Houve um tempo, segundo as lendas mais antigas do Japão, em que a luz deixou de existir. Não foi um eclipse, nem uma tempestade, nem o ciclo natural da noite. Foi algo pior. O sol simplesmente se recusou a nascer. E quando a humanidade percebeu que a escuridão não iria embora, entendeu que algo profundamente errado havia acontecido no coração do divino.

No centro dessa história está Amaterasu Ōmikami, a deusa do Sol, aquela cuja presença mantinha o mundo vivo. Diferente de outras divindades, Amaterasu não era apenas uma governante celestial. Ela era a própria luz. Seu afastamento significava mais do que trevas físicas — significava o colapso da ordem, da esperança e da sanidade.
Antes do desaparecimento, Amaterasu reinava sobre os céus com silêncio e disciplina. Seu brilho não era gentil; era absoluto. Tudo crescia sob sua vigilância, mas nada escapava ao seu julgamento. Os humanos a veneravam com temor, não com amor. Olhar diretamente para o sol sempre foi um erro — e isso não era apenas metáfora.
O início do fim veio através de Susanoo, seu irmão, deus das tempestades e da violência descontrolada. Ele não era apenas caótico; era imprevisível. Onde passava, deixava destruição, aldeias devastadas, templos profanados e cadáveres esquecidos. Amaterasu tolerou seus excessos por tempo demais, até o dia em que Susanoo cruzou um limite irreversível.
As versões mais antigas da lenda descrevem o ato com detalhes perturbadores. Susanoo invadiu os domínios sagrados da irmã, destruiu campos divinos e, em um gesto final de crueldade, lançou o corpo mutilado de um animal sagrado dentro do salão onde Amaterasu tecia a luz do mundo. Algumas versões dizem que não era um animal, mas algo pior — algo que jamais deveria ter sido profanado.
O impacto não foi apenas emocional. Foi existencial.
Amaterasu não gritou. Não amaldiçoou. Ela fez algo muito mais aterrador. Ela se retirou.
Ferida, humilhada e tomada por uma fúria silenciosa, a deusa do Sol caminhou até uma caverna profunda chamada Amano-Iwato. Ao entrar, selou a entrada com uma rocha colossal. Com esse único ato, ela apagou a si mesma do mundo.

O efeito foi imediato.
O céu escureceu permanentemente. As plantas começaram a morrer. O frio se espalhou mesmo durante o que deveria ser verão. Espíritos malignos, antes mantidos à distância pela luz, passaram a vagar livremente. As fronteiras entre o mundo humano e o sobrenatural se dissolveram. Mortos começaram a aparecer em sonhos, sombras se moviam sem fonte de luz, e o silêncio tornou-se opressor.
Sem o sol, o tempo perdeu significado. Dias e noites se confundiram. A humanidade começou a enlouquecer lentamente. Algumas aldeias se voltaram umas contra as outras. Outras desapareceram completamente, engolidas pela escuridão ou por algo que veio com ela.
Os deuses menores entraram em pânico. Sem Amaterasu, eles também enfraqueciam. Tentaram invadir a caverna, mas a rocha não se movia. Tentaram implorar, mas não havia resposta. O silêncio dentro da caverna era absoluto e profundamente hostil.
Alguns deuses sugeriram forçar a saída de Amaterasu. Outros temiam o que aconteceria se a deusa retornasse ainda mais furiosa. Pois havia algo pior do que a escuridão: a luz movida por ódio divino.
Foi então que surgiu uma ideia desesperada.
Se Amaterasu não respondia a súplicas, talvez respondesse à curiosidade.
Os deuses realizaram um ritual proibido diante da caverna. Riram, dançaram, quebraram regras sagradas. A deusa Ame-no-Uzume executou uma dança grotesca, quase obscena, arrancando risos nervosos até dos espíritos mais antigos. O caos foi usado como isca.
Dentro da caverna, Amaterasu ouviu algo que não fazia sentido: alegria.
Movida por uma curiosidade fria, ela afastou levemente a rocha. Nesse instante, os deuses posicionaram um espelho sagrado diante da entrada. Quando Amaterasu viu seu próprio reflexo, um brilho que o mundo havia perdido, hesitou.
Foi o suficiente.
A rocha foi removida à força. A luz voltou ao mundo como uma explosão. Alguns relatos dizem que muitos humanos morreram naquele instante, incapazes de suportar o retorno repentino do sol. Outros ficaram cegos. A luz divina não é feita para ser absorvida sem consequências.
Amaterasu retornou, mas não como antes.
Ela voltou mais distante, mais silenciosa. Nunca mais caminhou entre os deuses da mesma forma. O mundo foi restaurado, mas algo permaneceu quebrado. A escuridão havia provado que o sol podia desaparecer. E isso jamais seria esquecido.
Desde então, a família imperial japonesa afirma descender diretamente de Amaterasu. Não como privilégio, mas como fardo. Carregar o sangue da deusa do Sol significa viver sob a ameaça constante de falhar, e repetir o erro que quase condenou o mundo.
O terror dessa lenda não está apenas na escuridão, mas na fragilidade da luz. O sol não é garantido. Ele existe porque escolhe existir. E se um dia decidir se retirar novamente, não haverá ritual capaz de trazê-lo de volta.
Alguns textos esquecidos sugerem algo ainda mais perturbador: Amaterasu nunca perdoou completamente. Ela apenas tolera. E tolerância divina tem limites que os humanos jamais deveriam testar.
Quando o céu escurece de forma estranha, quando o sol parece fraco demais, há quem sussurre que a deusa observa. Avalia. E considera, em silêncio, se o mundo ainda merece sua luz.
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